ANTAQ lança guia de incentivo à liderança feminina no setor portuário e hidroviário

Documento reúne dados, ferramentas e exercícios práticos para ampliar representação de mulheres no setor 

A Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ), com apoio do IBI Social, realizou na última sexta-feira (3), em Brasília, o lançamento oficial do Guia de Incentivo à Liderança Feminina — instrumento elaborado para ampliar a presença de mulheres em cargos de tomada de decisão no setor portuário e hidroviário. O evento reuniu parlamentares, representantes do governo federal, autoridades portuárias e dirigentes de agências reguladoras de transporte e telecomunicações. 

Frederico Dias, diretor Geral da ANTAQ, abriu a cerimônia com levantamento sobre a sub-representação feminina nas estruturas regulatórias brasileiras. Das 11 agências reguladoras federais, os 53 cargos de diretoria contavam com apenas 12 mulheres — 22% do total. Nas três agências do setor de transportes (ANAC, ANTT e ANTAQ), o dado histórico é ainda mais restrito: de 71 diretorias exercidas desde a criação das entidades, somente 7 foram ocupadas por mulheres. Na ANTAQ, a ex-diretora Flávia foi a única mulher em toda a história do cargo. 

Dias atribuiu o desequilíbrio não à falta de competência, mas à forma como os processos de seleção funcionam quando deixam de ser objetivos. Para ilustrar, citou o Poder Judiciário: no ingresso por concurso público, as mulheres respondem por 40% das vagas de juízes na primeira instância. Na promoção para a segunda instância — que depende de indicação —, esse percentual cai para 20%. 

“Na medida que você vai precisando ser escolhido ou escolhida, outros fatores, menos objetivos, já começam a entrar na conta. Muitas vezes, o nome de uma mulher sequer é cogitado, por mais que ela tenha todas as qualificações necessárias. É fundamental que as mulheres estejam em liderança para que outras possam se reconhecer e se enxergar na possibilidade de exercer essas funções”, disse. 

O diretor Geral ressaltou que o tema é de interesse institucional, não apenas das mulheres. “A equidade não é uma pauta das mulheres, ela é uma pauta das organizações no contexto de complexidade que a gente vive. Um ambiente de diversidade tem a maior capacidade e possibilidade de gerar soluções — e isso vem sendo conduzido de forma estratégica aqui na ANTAQ já há alguns anos, desde a pesquisa, a criação do comitê, o guia de combate ao assédio e agora este guia de liderança”, disse. 

A carta ao setor aquaviário 

Cristina Castro, diretora substituta da ANTAQ e responsável pela coordenação do guia, apresentou o documento de forma não convencional — por meio de uma carta ao setor, dispensando a apresentação por slides. 

“Há quem diga que o mar separa continentes. Eu acredito que aproxima pessoas. É pelas águas que circulam riquezas, alimentos, energia, conhecimento e oportunidades. É pelos rios, portos e mares que o Brasil se conecta consigo mesmo e com o mundo. Mas nenhuma embarcação chega ao seu destino sem pessoas capazes de conduzi-las”, falou. 

Na carta, a diretora descreveu o guia como instrumento de redução de barreiras — não de criação de privilégios. O documento reúne conceitos, dados, ferramentas, reflexões e exercícios práticos, com histórias que revelam obstáculos ainda presentes e caminhos para superá-los. 

“Esse guia nasceu do entendimento de que reconhecer que desenvolver pessoas é tão estratégico quanto desenvolver infraestrutura. Não foi escrito para dividir — foi escrito para ser somatória de histórias. Não pretende estabelecer quem deve liderar, mas contribuir para que toda liderança encontre espaço para florescer”, explicou. 

Castro concluiu a carta com um chamado à ação. “Que possamos inspirar conversas, despertar reflexões e, principalmente, motivar ações concretas. E que, no futuro, quando olharmos para trás, possamos dizer que essa geração escolheu navegar por águas mais justas, mais inclusivas, mais humanas”, disse. 

Castro reconheceu a trajetória da ex-diretora Flávia como ponto de partida da agenda interna de equidade de gênero da ANTAQ, e destacou a analista Flor, responsável pela primeira redação do guia. 

Diagnóstico, metas e implementação 

Thairyne Oliveira, secretária executiva do Ministério de Portos e Aeroportos, apontou a ausência de dados consolidados sobre a presença de mulheres no setor de infraestrutura como sintoma da escala do problema. 

“Hoje em dia a gente não consegue encontrar o número consolidado de mulheres no setor de infraestrutura como um todo. Ou seja, nós ainda somos invisíveis — por incrível que pareça. E isso mostra o tamanho do desafio que a gente tem”, falou. 

Os fragmentos disponíveis confirmam a escassez: 3% das mulheres atuam como pilotas; 17% compõem a força de trabalho no setor portuário. Oliveira, com 15 anos de carreira no setor portuário, teve apenas uma chefia feminina direta em toda a trajetória — por seis meses. 

Oliveira propôs três caminhos para sair da narrativa e avançar para a implementação. O primeiro é a adoção de metas objetivas, com exemplo concreto: incluir a presença de mulheres em liderança como critério de acesso ao Fundo da Marinha Mercante e aos instrumentos de fomento econômico do ministério — incluindo debêntures e RIEDs.  

O segundo é o fortalecimento das redes de apoio femininas: Oliveira atribuiu à ministra da Casa Civil a sugestão de seu nome para a secretaria executiva. O terceiro é converter diagnósticos em ação. 

“Dado sem ação, é só estatística. 3% de mulheres como pilotas, 17% no setor portuário — sim, e aí? O diagnóstico a gente já tem. O que a gente precisa é sair da narrativa e ir para a ação, encontrar um caminho de implementar”, argumentou. 

O próprio ministério ilustra o efeito de metas. Segundo Oliveira, a pasta conta hoje com mais mulheres do que homens em cargos de liderança de nível diretor para cima. Com a chegada de Luisa Deusdará como secretária executiva adjunta, somam-se duas mulheres no topo da secretaria executiva. 

Do esporte ao setor portuário 

Eliane Sammarco, presidente do IBI Social — braço de responsabilidade social da Frente Parlamentar Mista de Portos e Aeroportos (FPPA), que apoiou a realização do evento —, descreveu sua trajetória como uma sequência de barreiras superadas pela recusa em aceitar limitações de papel. 

“Eu nunca aceitei um não. Nunca me pus como uma mulher, me pus como uma pessoa que podia conquistar aquele espaço. Tive algumas barreiras, mas com rodinha no pé — e hoje com asas — fui seguindo em frente”, explanou. 

Sammarco narrou que o padrão começou no esporte: tricampeã brasileira de taekwondo, foi a primeira faixa-preta mulher de Santos. Depois atuou no setor financeiro, onde as mulheres precisam provar capacidade de gerir recursos de clientes homens, antes de ingressar na navegação, área em que atua há 20 anos.  

O convite para presidir o IBI Social chegou no ano anterior — cargo que, segundo ela, aceitou após perceber, nas mulheres que encontrava em Brasília, a necessidade de visibilidade pública para ocupar e abrir espaços. 

“Quando veio o convite para eu ser presidente do Conselho de Mulheres Empreendedoras de Santos, eu disse não, deixa eu no meu canto. Foram as pessoas ao meu redor que me mostraram a importância de falar sobre o trabalho — e de ajudar outras mulheres a saírem dessa casinha também”, falou. 

Outras lideranças  

O evento contou com mesa de bate-papo que reuniu outras dirigentes de destaque. Cíntia Ruas, superintendente de Sustentabilidade, Pessoas e Inovação da ANTT, foi nomeada para o cargo com 35 semanas de gravidez. Oquerlina é a primeira mulher efetivada na presidência do Porto de Itaqui (EMAP) em toda a história da autoridade portuária — gestão sob a qual as mulheres passaram a ocupar 48% dos cargos de liderança do complexo, quase o triplo da média nacional do setor portuário. Cristiana tornou-se a segunda mulher em quase 27 anos de história da Anatel a compor o conselho diretor, com indicação formalmente justificada com base na meta 5.5 da Agenda 2030 da ONU. 

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