No A&M Port Fórum, em São Paulo, especialistas discutem soluções para acelerar projetos logísticos, com destaque para o papel técnico do IBI na promoção de planejamento de longo prazo e dados concretos para decisões republicanas.
A segunda edição do A&M Port Fórum, promovida pela Infra Projects by Alvarez & Marsal, reuniu na quarta-feira (15), em São Paulo, debatedores em torno do painel “Desafios e soluções para potencializar a implantação de projetos”.
O evento destacou a complexidade da infraestrutura brasileira, marcada por dimensões continentais, disparidades regionais e entraves federativos, e enfatizou a necessidade de governança integrada e parcerias público-privadas (PPPs) inovadoras.
Entre os participantes, Mário Povia, diretor-presidente do Instituto Brasileiro de Infraestrutura (IBI), trouxe contribuições técnicas fundamentais, reforçando o instituto como braço de análise para a Frente Parlamentar Mista de Portos e Aeroportos (FPPA).
Povia, com 20 anos de serviço público, abriu o debate parabenizando a iniciativa técnica do fórum e alertando para a persistência dos desafios infraestruturais.
“A própria característica continental do Brasil, as disparidades regionais, a forma como o Brasil se insere no mercado de commodities mundial, nós não vamos ter sossego com isso, de forma alguma.” Ele comparou o modelo brasileiro ao chinês, destacando judicialização e interdependência de poderes. “É muito mais difícil, com tudo isso, criar infraestrutura no Brasil do que na China, por exemplo. Porque é uma coisa muito diferente, não tem um top-down, não existe isso.”
O IBI, braço técnico da FPPA presidida pelo deputado Paulo Alexandre Barbosa, foi apresentado por Povia como essencial para demandas como a gestão integrada de obras no Porto de Santos. Ele defendeu o Observatório de Casos, iniciativa do instituto para fornecer dados certificados a privados, parlamento, agências reguladoras e Tribunais de Contas, evitando percepções de lobby.
“Não é na base do ‘achismo’. Você leva um dado concreto e fala a situação é essa, os números são esses, os dados são certificados” — disse Povia sobre a ferramenta que subsidia ações técnicas e legislação, promovendo ações republicanas.
Povia também advogou por planejamento estatal de longo prazo, fortalecimento das agências reguladoras com diretores independentes e modelos além das concessões puras, como PPPs para ferrovias. Ele citou o caso da FIPS como exemplo de parceria bem-sucedida, aprovada pelo TCU após questionamentos a contratos operacionais.
Rui Klein, diretor-geral de concessões da Ecovias – maior operador rodoviário do Brasil, com 12 concessões –, compartilhou lições de projetos como o Anel Viário de Cubatão e a terceira faixa da Rodovia dos Imigrantes. O executivo recordou a visão de longo prazo da Dersa, dos anos 1970. “Há que se ter visão de Estado. Há que se ter. E é legítimo falar que a Dersa já enxergava isso na década de 70.” Essa perspectiva incluiu uma família de projetos rodoviários, com pistas ascendentes e reversíveis, enaltecendo a engenharia técnica.
Klein atualizou o andamento da terceira faixa, com projetos executivos entregues em 2026 e licenciamento ambiental recorde, prevendo início das obras em 2027 e conclusão em 2031. Ele enfatizou a geometria de alta performance, com túneis paralelos de emergência, e alertou para horizontes de 20 a 40 anos, com gatilhos para expansões.
Marcos Gesteira, diretor de Administração e Finanças do Porto de Suape, abordou a instabilidade de lideranças e a necessidade de continuidade em planejamento. Ele criticou a curta duração de gestões, que impede visão estratégica, e destacou o impacto da Ferrovia Transnordestina no porto pernambucano. Gesteira defendeu ações coletivas para justificar projetos perante órgãos de controle, reforçando preocupações sobre a desconfiança em relações público-privadas.
“A gente tem que provar que não está atendendo a lobby nenhum, que é uma coisa mais republicana, é uma dificuldade adicional. Olhando para o para-brisa, o Público e o Privado têm que estar em frente, não vai ter jeito” — argumentou.
Luiz Felipe Távora, superintendente de Desenvolvimento de Infraestrutura da Autoridade Portuária de Santos (APS), apresentou 16 grandes intervenções no porto, incluindo dragagem para -16 metros, Complexo Viário Alemoa/Saboá/Anchieta e requalificação da Perimetral. “Se fosse alguma coisa simples, a gente não estaria aqui discutindo.” Ele defendeu licitações integradas para incluir licenciamento ambiental e matrizes de risco compartilhadas em PPPs, listando eventos como terminal de celulose e díades de líquidos.
O debate convergiu para a urgência de colaboração entre entes públicos, privados e sociedade civil, com o IBI posicionado como articulador técnico. Povia reforçou que o instituto, com equipe enxuta, depende de ações coletivas para produzir dados e diretrizes, como o fortalecimento regulatório e o replanejamento ministerial. Klein e Gesteira ilustraram sucessos e entraves em rodovias e portos nordestinos, enquanto Távora detalhou a governança santista.
O fórum sinaliza um movimento técnico para mitigar gargalos logísticos, essencial para o PIB brasileiro. Com o PAC dependendo majoritariamente de recursos privados, modelos híbridos como PPPs emergem como saída viável, sob a égide de planejamento estatal retomado.