Mesa Redonda promovida pelo Observatório de Dados do Instituto apresentou proposta de plataforma de “gêmeos digitais” e abriu agenda de pesquisa voltada à mão de obra do setor.
A Frente Parlamentar Mista de Portos e Aeroportos (FPPA) e o Instituto Brasileiro de Infraestrutura (IBI) realizaram na quinta-feira (26), em São Paulo, a Mesa do Observatório de Dados com o tema “Trabalho e Obras no Porto de Santos”.
O encontro reuniu representantes do setor e autoridades para discutir, de forma objetiva, iniciativas voltadas ao ganho de eficiência na operação portuária, à coordenação de obras e aos desafios relacionados à mão de obra no ambiente marítimo e portuário — agenda que exige planejamento com base em informação rastreável e capacidade de antecipar gargalos.
A programação foi organizada em três blocos. No primeiro, o Observatório apresentou projetos orientados por inteligência de dados para apoiar a eficiência operacional. Em seguida, o debate avançou para as intervenções de infraestrutura em Santos, com avaliação de impactos e coordenação de obras simultâneas. No terceiro momento, a mesa tratou do anúncio do lançamento de uma pesquisa do IBI sobre o trabalhador marítimo e portuário, incluindo a apresentação de metodologia e diálogo com atores do ecossistema, conforme o release divulgado pelo Instituto.
Na abertura, Mauro Sammarco, presidente do Conselho de Administração do IBI, descreveu a mesa como uma entrega dentro da estratégia do Instituto de organizar informação técnica e consolidar uma agenda de inteligência para a infraestrutura nacional.
“Hoje é um dia importante para a gente fazer mais uma entrega de todo o trabalho de inteligência que o Instituto se propõe a fazer, esse trabalho que nós fazemos aqui de mãos dadas junto com os nossos mantenedores e com essa grande equipe de executivos que nós temos para o incremento da infraestrutura do nosso país”, afirmou Mauro, agradecendo a participação de parlamentares, autoridades e representantes do setor.
Os trabalhos foram conduzidos pelo gerente do Observatório de Dados do IBI, Bruno Pinheiro, que apresentou a visão do Instituto de transformar bases dispersas — públicas e privadas — em análises rápidas, consistentes e “rastreáveis”, capazes de embasar decisões e discussões com o poder público e agentes de mercado.
“A gente não quer ser mais um repositório de dados que existe. Além de dados públicos, vamos trazer dados privados que só o IBI vai ter”, disse. Segundo Bruno, o objetivo é reduzir assimetrias de informação e fazer com que o setor tenha “munição pronta” para sustentar debates técnicos e defender interesses legítimos com consistência.
Durante a sua fala, Bruno Pinheiro reforçou que o Observatório não se limita a disponibilizar ferramentas. Sua vocação, afirmou, é entregar inteligência aplicada em tempo útil. “A ideia é a gente dar a inteligência. Então é entregar a análise pronta, é fazer o trabalho técnico para suportar as defesas de interesse do setor, dar a munição pronta para ser usada”, afirmou.
Ainda segundo o gerente do Observatório, os dados devem ser bem trabalhados uma vez que, em excesso e sem governança podem criar assimetrias, dificultando decisões quando houver divergências e lacunas. Defendeu, portanto, que informação confiável, quando bem-organizada, reduz espaço para disputas de narrativa.
Gêmeos digitais
O anúncio com maior repercussão entre os participantes foi a apresentação da proposta de plataforma de “gêmeos digitais”, uma prova de conceito (POC) digital da baixada santista que prova a necessidade de um projeto da prefeitura de Cubatão para acesso direto a margem direita do porto de Santos a partir da terceira via de acesso que virá a ser construída.
Bruno descreveu os Gêmeos Digitais como um modelo capaz de reproduzir, em ambiente digital, obras e interferências físicas e seus impactos na operação do Porto de Santos.
“A gente tem várias obras acontecendo ou para acontecer em Santos. Isso vai ser o problema bom, mas o problema, é o volume de obras que podem criar caos na mobilidade. Então a ideia é a gente deve criar um gêmeo digital para acompanhar todas essas obras”, afirmou explicando que o uso de simulação e acompanhamento pode antecipar conflitos e permitir ajustes antes que impactos se materializem em filas, restrições de acesso e perda de eficiência.
O gerente do Observatório citou, como exemplo, o debate sobre canteiros e frentes de obra e como decisões de implantação podem afetar acessos logísticos. “Onde vai ficar o canteiro do túnel? O canteiro do túnel vai atrapalhar a entrada da BTP? Será que esse canteiro é ali? Quando a Motaengil apresentar o projeto do canteiro, todo o projeto, inclusive, do canteiro, a gente coloca esse canteiro aqui no nosso gêmeo e fala: será que é o melhor lugar esse canteiro mesmo?”, indagou.
Na avaliação do gerente do Observatório, esse tipo de ferramenta permite que a discussão deixe de ser reativa — após o problema acontecer — e passe a ser preventiva, com decisão baseada em cenário.
A plataforma foi apresentada como parte de uma agenda que pretende conectar eficiência operacional, planejamento de obras e políticas de qualificação profissional.
Trabalhador Portuário
Ainda durante a sua apresentação, Bruno Pinheiro detalhou o anúncio do lançamento da pesquisa do IBI sobre o trabalhador marítimo e portuário, defendendo que o setor carece de um diagnóstico contemporâneo capaz de orientar políticas públicas e estratégias de capacitação.
“A gente fala muito em relação ao porto-cidade. O trabalho é o principal veículo dessa relação, e a gente não sabe, hoje, quem é o trabalhador portuário de Santos, qual o perfil, como o trabalho portuário impacta a economia da região”, afirmou.
Para o engenheiro, sem radiografia atual, o debate tende a ficar no campo da intenção — e não de metas e medidas. Explicou também como o levantamento pretende produzir um “delta” entre o cenário presente e a demanda futura, oferecendo base para projetos de formação e atração de talentos.
“Fazendo um levantamento para definir o perfil, identificar o perfil, entender quem é esse trabalhador portuário, a gente pode falar: temos um déficit, o nosso delta para chegar até onde nós queremos, as empresas precisam, o mercado precisa, e vamos formar essa mão de obra”, disse.
O gerente do Observatório ainda apontou a ambição de transformar a pesquisa em um projeto com efeitos práticos e replicáveis. “Essa é uma iniciativa que pode se tornar um projeto belíssimo, porque ele tem o poder de ter como derivado várias políticas públicas transversais, que podem mudar não só o setor, aquela região, o mercado, mas, inclusive, as cidades onde os portos estão inseridos”, completou.
A pauta social foi reforçada pela presidente do IBI Social Eliane Samamrco – também presente na mesa redonda – que defendeu uma estratégia baseada em capacitação e diagnóstico, e criticou abordagens de curto prazo centradas apenas em assistência.
“A nossa frente é essa de capacitar, de pensar no futuro como infraestrutura, e da base social por capacitação e assistencialista”, afirmou.
A presidente do IBI Social sustentou que a transformação do porto — com mais tecnologia e processos enxutos — exige um olhar atualizado sobre quem trabalha no setor e quais oportunidades se abrem para mulheres e jovens. “Hoje o Porto mudou, a gente não tem mais o homem do saco, na nossa linguagem. A gente tem a tecnologia que viabiliza todo mundo”, disse.
Mais investimentos
A mesa redonda contou com a participação do vice-presidente honorário da FPPA, deputado Federal Leônidas Cristino, que defendeu um patamar mínimo de investimento para impedir deterioração da infraestrutura e afirmou que, sem escala adequada, o país apenas “anula” perdas, sem avançar. “
“Segundo levantamentos feitos o Brasil precisa endereçar 2% do PIB, para investimentos nessa área para equiparamos em termos de infraestrutura no cenário internacional. Quando você chega na infraestrutura de transporte, esses valores são dramáticos”, completou, ao associar o tema à deterioração de rodovias e obras de arte especiais.
A mesa também contou com a participação do diretor de Relações Institucionais da Confederação Nacional do Transporte (CNT), Valter Souza, que relacionou o debate sobre dados e planejamento ao desafio de continuidade de projetos públicos — e à necessidade de articulação técnica e política para sustentar programas de longo prazo. “O problema do Brasil é estrutural, não é conjuntural”, afirmou.
Na avaliação de Valter, a rotatividade de equipes e prioridades dificulta transformar planos em obras e resultados. “Nós temos que nos unir através de fazer projetos de longo prazo”, disse, ao defender que iniciativas como o Observatório ajudam a criar informação, pautas técnicas e pressão organizada para dar previsibilidade ao setor.