Em conversa no PodInfra, Mariana Lamoso explicou por que a Frente Parlamentar Mista de Portos e Aeroportos precisou criar o IBI, o método das mesas redondas e do Summit Connect Infra, e os gargalos estruturais que travam o investimento em infraestrutura no país
Mariana Lamoso, gerente de projetos do Instituto Brasileiro de Infraestrutura (IBI), é a convidada desta semana do PodInfra — podcast da Frente Parlamentar Mista de Portos e Aeroportos (FPPA). Durante o bate-papo, Looso descreveu sua trajetória até a área de infraestrutura, a origem institucional do IBI, a diferença entre o Instituto e uma associação setorial tradicional, e os problemas estruturais que, em sua avaliação, impedem o Brasil de tratar a infraestrutura de transportes como política de Estado.
Nascida em São Paulo, Mariana Lamoso veio para Brasília há três anos, a convite do deputado federal Paulo Alexandre Barbosa, fundador da FPPA e do IBI, para integrar a equipe do gabinete dele. Antes, trabalhou no governo do Estado de São Paulo, com protocolo, cerimonial e relações internacionais — incluindo inaugurações de aeroportos regionais, como Araçatuba, Bauru e Campinas, e o programa de stopover da gestão João Doria.
“No governo do Estado, a gente tinha contato com pautas de logística e transportes, mas com uma visão muito local — a malha estadual, o Porto de Santos visto de fora, porque ele é administrado pelo governo federal. Vir para Brasília abriu muito o meu leque. A infraestrutura é muito maior do que a gente imagina: ela está na comida que chega à mesa, no remédio da farmácia, no insumo do hospital. Tudo está interligado”, disse.
A mudança também alterou sua percepção sobre a diferença entre executar políticas públicas e formulá-las no Legislativo.
“No Executivo, você executa o que já foi definido. No Legislativo, a gente pode contribuir com a própria decisão que vai ser executada lá na frente. Isso exige mais paciência e mais diálogo, mas o resultado é que essas políticas públicas passam a refletir aquilo que a gente ajudou a construir”, explicou.
Por que a Frente Parlamentar precisou de um instituto
Lamoso explicou que a criação do IBI foi consequência direta de uma limitação estrutural das frentes parlamentares: elas não têm personalidade jurídica nem orçamento próprio para funcionar. O deputado Paulo Alexandre instalou, ao mesmo tempo, a FPPA e a frente em defesa do túnel Santos-Guarujá — mas a equipe percebeu que ter assinaturas suficientes para formalizar uma frente, entre as quase 400 hoje no Congresso, não bastava para dar voz ao setor.
“A Câmara não dá nenhum tipo de subsídio para fazer a frente funcionar. A gente precisava de orçamento para eventos, para reuniões, para levar a voz do setor. Sozinhos, não conseguiríamos chegar lá — foi aí que chegamos ao consenso de que um instituto seria a melhor opção, porque a frente, sem personalidade jurídica, não tinha como executar nada por conta própria”, argumentou.
Segundo a gerente de Projetos, o diferencial do IBI em relação a outros institutos ligados a frentes parlamentares é a produção técnica própria — não apenas suporte administrativo.
“Tem grandes frentes parlamentares que têm institutos, mas que não produzem: eles só dão suporte. O IBI se diferencia porque, além do suporte técnico à frente parlamentar, ele produz conteúdo. A gente não segue partido político nem uma pauta de associação única — a gente segue um propósito, baseado em estudos técnicos, porque temos várias empresas mantenedoras, com visões diferentes entre si”, falou.
Mesas redondas conforme o objetivo de cada pauta
Lamoso descreveu a metodologia do Instituto para escolher o formato de cada evento — mesa redonda, reunião fechada ou encontro público — a partir do resultado buscado.
“Tudo depende do objetivo daquela discussão. Se a gente quer que uma pauta seja ouvida pelo maior número de pessoas possível, é um formato. Se a gente quer sair com um documento, uma nota técnica construída por especialistas, entra o formato de mesa redonda. Se é uma questão pontual para levar a um deputado específico, é outra dinâmica ainda”, explicou.
O Summit Connect Infra, segundo ela, é o evento do qual mais se orgulha, por resultar sempre em documento concreto de encaminhamento.
“O Summit é o nosso grande evento. A gente sempre sai dele com uma carta fechada, com as principais pautas do setor, e a gente consegue endereçar essa carta. É difícil consolidar um fórum permanente que aconteça ano após ano — a gente conseguiu porque tem credibilidade”, disse,
Missão internacional ao túnel entre Alemanha e Dinamarca
Lamoso relatou a organização de uma missão internacional para conhecer a obra de um túnel submerso entre a Alemanha e a Dinamarca, que usa a mesma técnica prevista para o túnel Santos-Guarujá. O contato direto com empresas não avançou; a articulação só teve sucesso após passar pelo Itamaraty.
“A missão foi feita para a gente conhecer o principal túnel submerso em construção no mundo, que tem a mesma técnica do túnel Santos-Guarujá. Só tive sucesso quando entrei na interlocução com o Itamaraty — foram inúmeras visitas, não foi fácil, mas fomos construindo até chegar lá”, comentou.
A visita revelou uma diferença concreta de escala entre os projetos.
“Em Santos, a gente não tem espaço suficiente para um canteiro de obras do porte que vimos lá. Essa já foi uma dificuldade identificada naquela visita — e voltamos todos com a mesma opinião sobre o que fazer com isso”, disse.
Agroportos: gargalos comuns entre dois setores
Lamoso descreveu a origem do movimento Agroportos, criado a partir de demanda da Abratec, associada do IBI, em parceria com a Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA). O primeiro encontro foi na sede do IBI, e resultou em carta com os dez principais gargalos entre os setores de agronegócio e infraestrutura logística.
“O nosso objetivo era reunir os principais gargalos dos dois setores para transformar isso em política pública, levar isso aos ministérios. Um setor complementa o outro: você não produz sem ter a logística para escoar, e não precisa de logística se não tem produção. Foi muito tranquilo tratar essa pauta porque todo mundo viu a mesma lógica”, explicou.
Um segundo encontro, em Curitiba, teve a participação do presidente da FPA, deputado Pedro Lupion, que passou a integrar também a FPPA.
“Foi um desafio, porque, fora do nosso território, é mais complicado. Mas foi muito positivo: o Pedro Lupion participou, conheceu o nosso trabalho e decidiu se associar à Frente Parlamentar de Portos e Aeroportos, que ele ainda não integrava”, descreveu.
Infraestrutura como política de Estado
Lamoso apontou a falta de continuidade entre governos como um dos principais obstáculos ao planejamento de longo prazo no setor.
“A infraestrutura de logística tem que ser política de Estado — infelizmente, não é. Um governo faz acordos, segue com uma demanda, e quando esse governo termina, tudo cai por terra. A instituição tem que começar a trabalhar tudo de novo, apresentar de novo o que já tinha sido tratado”, comentou.
Ela citou uma missão internacional à Coreia do Sul, no contexto dos trabalhos da comissão do PL 733/2025, como referência de política de incentivo a investidores que o Brasil não replica.
“Em Busan, tivemos uma reunião com o ministro de infraestrutura e pesca da Coreia do Sul, que contou que o país dá isenção de impostos para quem quer investir lá. É uma contrapartida que a gente não tem aqui — precisaríamos de mais segurança jurídica para que os investidores tenham vontade de investir a longo prazo”, ponderou.
Para Lamoso, a lentidão do licenciamento e a lógica política de curto prazo nas obras rodoviárias também travam o planejamento.
“O licenciamento demora muito, e sem previsibilidade: você só sabe que vai dar não na última hora. A questão da rodovia é totalmente política — quem mora no interior quer que o problema seja resolvido, não quer um planejamento que demore mais para entregar algo melhor. E o político vai atrás do que resolve o problema mais rápido, porque precisa mostrar resultado”, falou.
Ela relacionou ainda a expansão desordenada de cidades portuárias, como Santos, à dificuldade de ampliar a infraestrutura sem enfrentar questões sociais.
“O Brasil foi fazendo puxadinho — construiu aqui, depois ali, sem planejamento prévio. Quando a cidade já chegou até a área do porto, com ocupações irregulares, você entra na questão social: são pessoas que vão perder a casa. É uma situação muito complicada”, disse.
Ao encerrar a participação, Lamoso adiantou a quarta edição do Summit Connect Infra, marcada para 4 de dezembro, em Santos, com expectativa de ocorrer no
Armazém do Valongo.
“A intenção é reunir as principais pautas do setor e dar uma esquentada nos assuntos depois deste ano mais adormecido no Congresso, para a gente já começar 2027 com tudo”, comentou.