Reunião extraordinária híbrida reuniu associados, diretoria e convidados para analisar riscos à segurança da navegação em meio ao avanço das tensões geopolíticas.
O Instituto Brasileiro de Infraestrutura (IBI) promoveu, na tarde desta terça-feira (17), uma reunião extraordinária híbrida para discutir os impactos da guerra no setor de navegação. O encontro contou com a participação de associados, membros da diretoria executiva do IBI e convidados do setor, em uma agenda voltada a avaliar como a escalada dos conflitos tem afetado rotas estratégicas, custos de transporte, seguros e, principalmente, a previsibilidade necessária para o comércio internacional — fator decisivo para um país cuja economia depende fortemente do fluxo marítimo de cargas.
Organizadora da reunião e presidente do IBI Social, Eliane Sammarco abriu os trabalhos destacando a importância de transformar a preocupação do setor em diálogo técnico e coordenação institucional.
“Diante de um cenário internacional tão instável, é essencial reunir quem opera, quem regula e quem estuda o tema para entender os efeitos reais da guerra sobre a navegação. O objetivo é construir leitura qualificada e caminhos práticos — com foco na proteção da vida humana no mar e na segurança das rotas — para que empresas e o país tenham mais previsibilidade e capacidade de resposta”, afirmou.
A apresentação central ficou a cargo de Leandro Carelli Barreto, diretor-gerente da Solve Shipping Intelligence, que contextualizou o quadro global a partir da pressão sobre corredores marítimos sensíveis e das consequências em cascata no transporte de cargas.
Barreto chamou atenção para o impacto sobre rotas e pontos de estrangulamento que reorganizam a logística internacional, com destaque para alternativas e desvios relacionados ao Canal de Suez, ao Bab al-Mandab e ao Estreito de Ormuz — áreas que, quando sob ameaça, elevam o risco operacional e pressionam o tempo de trânsito dos navios.
Na avaliação do executivo, a crise se traduz rapidamente em aumento de custos e instabilidade para armadores, embarcadores e importadores, pressionando combustível marítimo, fretes e apólices. O especialista também apontou efeitos práticos que já se refletem na rotina do setor, como saturação de terminais e perda de nível de serviço: maior incidência de cancelamentos de escala, “blank sailings” (viagens canceladas), rolagem de carga e aumento de despesas como demurrage e detention, que se acumulam quando o fluxo normal de navios e contêineres é interrompido.
Para o Brasil, Barreto destacou que a volatilidade do cenário internacional tem reflexos diretos em setores estratégicos da balança comercial. Do lado das exportações, mencionou cargas como milho, soja e farelo, além de açúcar e carnes, que dependem de regularidade logística e custos competitivos para manter posição em mercados globais.
Do lado das importações, o alerta recaiu sobre a sensibilidade de itens essenciais, como fertilizantes (com destaque para a ureia) e combustíveis — entre eles o diesel — cuja disponibilidade e preço influenciam toda a cadeia produtiva, do campo aos centros urbanos.
Na sequência, o encontro reuniu contribuições de convidados com perspectivas complementares sobre riscos, resposta operacional e coordenação setorial. O Diretor-Executivo da ABAC, associada do IBI, Comandante Luís Fernando Resano abordou a necessidade de atenção redobrada a procedimentos e segurança em tempos de elevação de risco, considerando os impactos sobre rotas e operações.
O encontro também contou com o professor de geopolítica da Escola Naval, Comandante Leonardo Mattos, que trouxe reflexões sobre o contexto do conflito e seus desdobramentos, reforçando como a instabilidade geopolítica amplia incertezas e impõe revisões contínuas de planejamento.
Já a Diretora de Assuntos Econômicos do Ministério de Portos e Aeroportos (MPor), Helena Venceslau, apontou a importância de acompanhar o tema com foco em competitividade e resiliência, considerando que a dinâmica internacional afeta custos, disponibilidade de insumos e o desempenho do setor de navegação e da infraestrutura portuária.
Outro ponto de destaque do debate foi a participação do Contra-Almirante Eduardo Tozzini, subchefe de Assuntos Marítimos do Estado-Maior da Armada e coordenador-adjunto da Comissão Coordenadora para os Assuntos da Organização Marítima Internacional (IMO).
Tozzini informou que o Secretariado da IMO convocou reuniões para quarta e quinta-feira, em atendimento a uma demanda dos Emirados Árabes Unidos, que manifestou preocupação com ameaças e ataques atribuídos ao Irã contra navios comerciais e marítimos no Estreito de Ormuz.
Segundo o Contra-Almirante, após consultas ao Ministério das Relações Exteriores, a posição da Representação Permanente do Brasil na IMO deve ser no sentido de condenar ações que resultem em morte ou ferimento de marítimos, enfatizando a proteção da vida humana no mar e a segurança da navegação, sem atribuição de responsabilidade direta a qualquer parte.
No encerramento, o diretor-presidente do IBI, Mário Povia, retomou as principais mensagens do encontro e apontou que o setor precisa tratar o cenário como um alerta para planejamento e maturidade institucional.
“Quando conflitos afetam rotas, seguros e custos, a consequência chega rapidamente ao Brasil por meio do frete, do abastecimento e da competitividade. Por isso, precisamos de estratégia de longo prazo e de um ambiente mais previsível, que ajude o setor a se preparar, e não apenas reagir”, disse.
O presidente do Conselho de Administração do IBI, Mauro Sammarco, reforçou a ideia de que a resposta mais consistente passa por organização, técnica e informação.
“A melhor forma de reduzir incertezas é fortalecer a base técnica e os dados confiáveis que sustentam decisões. O país precisa se preparar para choques externos que impactam a logística e a navegação, integrando visão estratégica e capacidade de adaptação”, concluiu, destacando que o debate não se encerra no diagnóstico: ele deve orientar ações contínuas para ampliar resiliência e reduzir vulnerabilidades em um cenário internacional cada vez mais imprevisível.