Representantes dos institutos e entidades setoriais analisam gargalos no escoamento de grãos e propõem planejamento de longo prazo em portos, ferrovias e armazenagem.
O primeiro painel do Agroportos 2026 abordou a infraestrutura logística, com ênfase em armazenagem e investimentos privados em transportes. Mário Povia, diretor-presidente do IBI, mediou os debates e destacou a disparidade entre o crescimento da produção agrícola e a capacidade limitada de escoamento, defendendo planejamento que integre modais como rodovias, ferrovias e hidrovias.
Povia, enfatizou a transição de políticas de governo para políticas de Estado.
Ele propôs a elaboração de uma carta com diretrizes técnicas para subsidiar ações legislativas.
“É fundamental pensarmos no longo prazo, sem repaginar políticas públicas a cada quatro anos. Precisamos de políticas de Estado para infraestrutura, investimentos com retorno prolongado que transcendem governos. Convido todos a sairmos daqui com diretrizes que permitam sequência efetiva às proposições discutidas”, disse.
Nicola Margiotta Jr., diretor administrativo e financeiro do IBI, participou remotamente do encontro. O advogado elogiou a articulação entre frentes parlamentares e institutos para avançar pautas no Congresso.
“Essa união de frentes parlamentares contribui para o desenvolvimento de pautas no Congresso Nacional. É com essa visão que pensamos eventos conjuntos entre frentes, institutos de logística, infraestrutura e setor produtivo”, falou.
Eliane Sammarco, presidente do IBI Social, integrou-se aos debates e trouxe uma visão voltada à sustentabilidade e o impacto social da logística.
Ela alertou para a necessidade de harmonizar interesses do agro, portos e infraestrutura com proteção ambiental e geração de empregos.
“Cada reunião é um aprendizado para pensarmos pautas em conjunto, evitando conflitos futuros. Discutimos o impasse entre agro, portos e infraestrutura, sempre considerando sustentabilidade e o trabalhador”, argumentou.
Expansão e estabilidade regulatória
Liara Abrão, representante da Associação Brasileira dos Terminais de Contêineres (ABRATEC) – entidade associada ao IBI – trouxe contribuições aos nos debates ao analisar o cenário de cargas conteinerizadas em 2025, com 164 milhões de toneladas e 85% de ocupação nos terminais principais.
Ela defendeu consenso para soluções regulatórias e investimentos em capacidade operacional.
“Nossa proposta é identificar gargalos fundamentais e apresentar soluções tangíveis de curto, médio e longo prazo. Precisamos de estabilidade regulatória para investimentos, pois o crescimento é inevitável”, defendeu.
A fala de Liara foi ao encontro das pontuações feitas pelo diretor executivo da ABRATEC, Caio Morel, que destacou atrasos em projetos como o TECON Santos 10, previsto desde 2018. Ele criticou a dependência de novos equipamentos em vez de expansão física, agravando congestionamentos em portos como Santos.
“O Brasil cresce, mas a infraestrutura para. O Plano Mestre de Santos previa ações desde 2018, mas seis anos se passaram sem execução. Precisamos aderir aos planejamentos para evitar congestionamentos”, pontuou.
Gargalos regionais e concessões
Outro associado do IBI que participou dos debates foi Sérgio Lima, diretor-presidente da CMA Terminals Fortaleza, que trouxe a perspectiva regional ao debater o escoamento de frutas, que representa 90% de sua carga.
Ele apontou desafios em áreas como Matopiba, onde cargas viajam até 2.500 km até portos adequados, limitando o crescimento produtivo.
“Estamos conectados ao agronegócio, mas novas áreas como Matopiba demandam terminais capacitados. A produção cresce, mas faltam investimentos para acompanhar, especialmente no Norte e Nordeste”, falou.
Já Gabriel Vieira, diretor do Porto de Paranaguá, compartilhou experiências com oito leilões de terminais e concessão de canal nos últimos anos.
Paranaguá, principal escoador de grãos e receptor de 25% dos fertilizantes importados, enfrentou judicializações que atrasaram investimentos.
“Tivemos oito leilões de terminais e concessão de canal. Alguns com outorgas baixas, outros concorridos, mas geraram judicializações. É preciso defender o interesse público além do privado para viabilizar investimentos”, disse.
Carga com prejuízos
Eduardo Heron, representante do CECAFÉ, participou dos debates e enfatizou prejuízos na cadeia do café, que representa 96% dos embarques nacionais. Ele cobrou maior participação de usuários e harmonização entre navegação, terminais e portos para reduzir custos logísticos.
“Resolver logística exige sentar-se para planejar e harmonizar problemas comuns: navegação, usuários, terminais e portos. Da porteira para fora, há milhares de desafios, mas falta união setorial”, argumentou.
CNA: Déficits de armazenagem
Elisangela Pereira Lopes, assessora técnica da Comissão de Logística e Infraestrutura da CNA, apresentou dados detalhados de produção e exportação de soja e milho em 2025.
A assessora mostrou que nas regiões Norte e Nordeste, 69,9% da produção (218,4 milhões/t) concentrou-se no Arco Norte, com exportações de 59,7 milhões/t (34%), lideradas por Santarém, São Luís/Itaqui e Itacoatiara. O CAGR (Taxa de Crescimento Anual Composta) da produção nessa região foi 8,9% desde 2009, superando o Arco Sul.
“A produção de grãos atingirá 312,5 milhões de toneladas, com superávit exportável de 175,5 milhões. Déficit de armazenagem cresce em Mato Grosso (-53,4 milhões/t) e Matopiba (-22,2 milhões/t), ou 56% do total nacional. Densidade ferroviária é baixa em MT (0,40 km/1.000 km²) e PA (0,26 km/1.000 km²), com 38,4% da malha sem operação”, explicou.
Os debates do painel foram encerraados pelo vice-presidente da Região Norte da Frente Parlamentar Mista de Portos e Aeroportos (FPPA)), senador Sérgio Petecão. Em sua fala, o parlamentar defendeu a conversão de discussões em ações parlamentares efetivas.
“Fiquei muito satisfeito com as apresentações, mas entendo que precisamos transformar esses debates em ações concretas no Congresso, positivando em lei as diretrizes técnicas discutidas aqui. Assim, passamos de políticas de governo para políticas de Estado, garantindo investimentos de longo prazo que superem ciclos eleitorais e atendam às demandas do agro e da infraestrutura nacional”, argumentou.