Reunião discutiu demandas de infraestrutura portuária, ambiente regulatório e ajustes na proposta para viabilizar a nova indústria
Representantes da Portos RS, da Associação Brasileira das Entidades Portuárias e Hidroviárias (ABEPH), do Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) e do Global Wind Energy Council (GWEC) participaram, na segunda-feira (9), de reunião na sede do Instituto Brasileiro de Infraestrutura (IBI), em Brasília, para tratar das “Eólicas Offshore no Brasil e o papel dos portos para o desenvolvimento dessa indústria”.
O encontro reuniu atores estratégicos para discutir os desafios de infraestrutura e regulação que condicionam a entrada do país em um mercado global em acelerada expansão — e, sobretudo, o que precisa mudar para que os portos brasileiros estejam prontos para sustentar a cadeia logística do setor.
A reunião contou com a presença do diretor-presidente do IBI, Mário Povia, do diretor-presidente da Portos RS e vice-presidente da ABEPH, Cristiano Klinger, e do presidente do Comitê Jurídico da ABEPH, Fábio Silveira. Participaram também o diretor do Programa de Políticas Setoriais, Planejamento e Inovação do Ministério de Portos e Aeroportos (DPPI/MPor), Tetsu Koike, o gerente de Planejamento e Desenvolvimento da Portos RS, Fernando Estima, e a diretora de Políticas da GWEC, Roberta Cox. A Portos RS é entidade ligada à ABEPH e associada do IBI.
O debate partiu de um diagnóstico compartilhado: a indústria de eólicas offshore não se consolida apenas com projetos no mar. Ela depende de um ecossistema logístico e industrial em terra, com portos capazes de receber, armazenar, movimentar e apoiar a montagem de estruturas de grande porte, além de uma governança que reduza incertezas e confira previsibilidade a investimentos de longo prazo. Nesse contexto, o papel da infraestrutura portuária é elemento estruturante da cadeia — tanto para a competitividade quanto para o desenho de políticas públicas.
Potencial e exigências operacionais
A reunião contou com a apresentação técnica de Fernando Estima, que detalhou o papel dos portos para o desenvolvimento das eólicas offshore, com foco na experiência e nos ativos do Rio Grande do Sul. Conforme os dados apresentados, a Portos RS administra os portos públicos e parte relevante da rede hidroportuária do estado, ressaltando que 20% da economia gaúcha passa pelos portos do Rio Grande do Sul.
Estima também destacou que, em 2025, a Portos RS movimentou mais de 46 milhões de toneladas e conta com 56 berços operacionais — números que ajudam a dimensionar a importância logística do complexo e sua capacidade de articulação com distritos industriais, áreas portuárias e projetos de arrendamento.
Ao tratar da inserção do Brasil no cenário das eólicas offshore, o gerente chamou atenção para a escala dos empreendimentos e suas exigências físicas e operacionais. As dimensões — em tamanho e peso das estruturas — colocam pressão sobre áreas retroportuárias, acessos, calado, equipamentos e operações especializadas.
Nesse ambiente, as escolhas de política pública e de planejamento tornam-se determinantes para evitar gargalos logísticos que podem inviabilizar cronogramas, elevar custos e reduzir o apetite do investimento privado.
Outro eixo relevante da exposição foi a integração com a agenda de descarbonização e os novos vetores energéticos. Estima abordou o tema do hidrogênio verde, descrevendo as condições do Rio Grande do Sul para apoiar projetos dessa natureza, como a presença de infraestrutura de transmissão, portos públicos e capacidade de escoamento, além do potencial de conexão com projetos eólicos onshore.
No conjunto de iniciativas citadas, foi apresentada a Chamada Pública nº 01/2025, voltada a projetos de hidrogênio verde, renovável e/ou de baixo carbono no estado. Entre os elementos do edital, foram citadas a possibilidade de subvenção de até R$ 30 milhões por projeto e o investimento total de R$ 102,4 milhões, além de exigências de maturidade tecnológica e de integração com processos industriais, insumos para a atividade industrial ou mobilidade verde.
A apresentação trazida pelo gerente também listou projetos industriais e logísticos ligados à transição energética e à diversificação produtiva do estado, como a perspectiva de uma biorrefinaria e iniciativas envolvendo combustíveis marítimos de menor teor de carbono.
Nesse ponto, foram mencionados avanços no debate sobre bunkering de baixo carbono, com destaque para o combustível VLS B24 — composto por 24% de biodiesel e 76% de óleo mineral, conforme padrões internacionais —, além de operações previstas no Terminal de Rio Grande (TERIG) e uma previsão contratual de entregas de até 12.000 toneladas ao longo de 2026.
Coordenação entre entidades
A pauta foi conectada à ambição de posicionar o Porto do Rio Grande como hub sustentável e a iniciativas de corredor verde, reforçando o argumento de que os portos podem ser protagonistas tanto na logística tradicional quanto no redesenho energético global.
Durante o debate, foi reforçado que a transição energética exige coordenação interinstitucional e clareza regulatória para sair do campo das intenções e chegar ao investimento. Os participantes apontaram a necessidade de que o país trate a agenda de eólicas offshore como política de Estado, com decisões coordenadas entre órgãos e com definição de responsabilidades para o planejamento portuário, o licenciamento, a conexão com a transmissão e os marcos legais.
A lógica defendida é a de que o porto deixa de ser apenas ponto de passagem de cargas e passa a ser um indutor de desenvolvimento regional, atraindo indústria, tecnologia e cadeias de fornecedores.
Proposta robusta
Durante a reunião, o representante do Ministério de Portos e Aeroportos, Tetsu Koike, levantou preocupações sobre o amadurecimento da proposta, sinalizando melhorias com foco no alinhamento entre planejamento setorial, instrumentos regulatórios e coordenação federativa. A indicação é de que, para que o país avance, será necessário reduzir assimetrias de informação, aprimorar desenhos normativos e assegurar que a estratégia portuária esteja conectada à realidade dos projetos e ao tempo do investimento — evitando que o ritmo da burocracia se torne um obstáculo à competitividade.
Ao final, o encontro na sede do IBI consolidou um ponto de convergência: sem portos preparados, a indústria de eólicas offshore tende a enfrentar atrasos, custos mais altos e perda de oportunidades.
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