Estudo da Coalizão dos Transportes aponta três alavancas cruciais para reduzir emissões em 60% até 2050, mas desafios de investimento, financiamento e licenciamento persistem, conforme destaca Ronei Glanzmann, CEO da MoveInfra.
A associada do Instituto Brasileiro de Infraestrutura (IBI), MoveInfra, promoveu, nesta quarta-feira (11), o seminário “Logística verde para impulsionar um país mais competitivo e descarbonizado”. O evento abordou a preparação do Brasil na busca de uma infraestrutura aliada à reindustrialização e descarbonização no país.
O evento contou com a participação de diversos atores importantes do setor, entre eles o ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, o secretário-executivo do Ministério de Transportes, George Santoro, o diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustível, Artur Watt.
A cerimônia de encerramento coube ao CEO da MoveInfra, Ronei Glanzmann que, em sua fala, apresentou os principais pontos do Estudo da Coalizão dos Transportes, um material fundamental que será levado à COP30 e que aborda o processo de descarbonização do setor. Glanzmann destacou a importância do trabalho, afirmando: “Quem ainda não leu, está convidado a fazê-lo, pois é um estudo muito importante para o setor de transportes.”
O setor de transportes é responsável por cerca de 11% das emissões de CO² no Brasil, totalizando 260 milhões de toneladas de CO² equivalentes. Glanzmann ressaltou a predominância rodoviária do país: “Das nossas cargas, 69% vão de caminhão, mesmo em distâncias longas”, exemplificando o transporte de soja de Rondonópolis ao porto de Santos, prática incomum em outros países. No transporte de passageiros, a dependência rodoviária é ainda maior, com 94% do modal.
O estudo projeta que, sem ações concretas, as emissões do setor podem saltar de 260 milhões de toneladas em 2023 para 424 milhões em 2050. No entanto, foram identificadas três alavancas principais capazes de descarbonizar cerca de 60% desse total. Além delas, mais 80 alavancas podem contribuir para uma redução adicional de 8%, restando ainda 137 milhões de toneladas a serem compensadas, o que exige uma “discussão séria sobre o mercado de créditos de carbono no Brasil.”
A primeira alavanca é a mudança de matrizes no transporte, com a transferência de carga do modal rodoviário para o ferroviário e o aquaviário. Glanzmann enfatizou: “O rodoviário precisa transferir parte de sua carga para o ferroviário e o aquaviário. Nesse ponto, precisamos falar sobre hidrovias no Brasil, sobre navegação interior e sobre cabotagem na nossa costa.” Essa transição pode gerar uma redução de cerca de 65 milhões de toneladas de CO² equivalente.
A segunda alavanca é a expansão dos biocombustíveis. O Brasil, sendo o segundo maior produtor mundial (próximo aos EUA, superando Europa e Ásia), possui um histórico de sucesso com o etanol e avança com o etanol de milho. Essa expansão, incluindo biometano e Combustível Sustentável de Aviação (SAF), pode reduzir até 45 milhões de toneladas de emissões.
Por fim, a terceira alavanca é a eletrificação, que já avança em veículos leves e começa a surgir em veículos pesados, além de tecnologias como o power-to-X (produção de combustíveis sintéticos a partir de energia, como o hidrogênio). A eletrificação pode reduzir até 145 milhões de toneladas de CO². O CEO destacou a necessidade de “focar em soluções híbridas, pois somos um país continental, e não conseguiremos eletrificar toda a frota em todos os cantos do país.” Ele citou a solução híbrida (elétrico e etanol) da Stellantis, adaptada à realidade brasileira, e caminhões Scania que rodam com biometano.
Glanzmann concluiu sua apresentação apontando três grandes desafios para a implementação dessas soluções, utilizando a neurolinguística para fixá-los: Investimento, Financiamento e Licenciamento.
O Desafio do Investimento reside na necessidade de desenvolver ferrovias e hidrovias no Brasil, com “estímulos e investimentos cruzados, com concessões e aportes públicos”, consolidando um programa de Estado de longo prazo.
O Desafio do Financiamento é crítico em um cenário de juros altos. Glanzmann mencionou a SELIC a 15% e a urgência de iniciativas como o Fundo Clima, Eco Investe e Green Bonds para financiar ferrovias em larga escala, buscando “ganhar escala nesse processo”.
Por fim, o Desafio do Licenciamento ambiental para grandes empreendimentos (hidrovias, ferrovias, rodovias, portos e aeroportos) exige “que esses processos sejam mais ágeis e eficazes” para avançar na infraestrutura sem comprometer a sustentabilidade.