Presidente do Sindicato Nacional dos Conferentes afirma que o portuário precisa se adaptar às novas ferramentas, mas cobra investimentos das empresas e explica como automação e dados elevam produtividade, segurança e previsibilidade na operação.
O PodInfra – podcast da Frente Parlamentar Mista de Portos e Aeroportos (FPPA) – desta semana conta com a participação de Marcos Sanchez, presidente do Sindicato Nacional dos Conferentes de Carga e Descarga do Porto de Santos (SP).
Em uma conversa leve, mas carregada de informações o sindicalista coloca o futuro do trabalho portuário no centro do debate: o avanço tecnológico é inevitável — mas não pode ser unilateral. Para Sanchez, a modernização precisa caminhar junto com formação, transição digna e, principalmente, acesso real às tecnologias dentro dos terminais e das rotinas de operação.
Com uma trajetória que, segundo ele próprio relata, soma décadas “vividas dentro do porto”, Sanchez parte de um ponto simples e direto: o setor mudou e continuará mudando. O que está em jogo não é apenas a troca de ferramentas, mas uma alteração profunda na forma como se planeja, executa e controla o fluxo de cargas.
Nesse cenário, ele sustenta que resistir às novas mudanças é um erro — e que o trabalhador portuário precisa compreender a tecnologia como parte do ofício. Ao mesmo tempo, enfatiza que não se pode exigir adaptação sem oferecer condições materiais e treinamento contínuo.
Durante o bate papo, Sanchez defende que a régua da modernização deve valer para todos os lados. “O trabalhador tem que se adequar às novas tecnologias”, diz, deixando claro que a atualização profissional é um caminho sem volta. Mas ele completa com a condição que considera inegociável: “as empresas também precisam proporcionar essas tecnologias”. Explica ainda que não se trata de impor mudança ao elo mais vulnerável da cadeia, e sim de construir um processo em que investimento, capacitação e reorganização do trabalho caminhem juntos.
Sanchez argumenta que, quando a inovação chega de forma estruturada, os ganhos não ficam restritos às empresas — eles se espalham pela operação inteira. O sindicalistaaponta que a adoção de sistemas, equipamentos e coleta de dados melhora o controle do que entra e do que sai, reduz falhas e aumenta a confiabilidade das informações. “Tecnologia é para dar segurança e previsibilidade”, afirma em síntese, conectando a digitalização a um ponto sensível da logística portuária: previsibilidade é o que reduz custo, evita retrabalho e diminui conflito operacional na ponta.
Ao explicar os ganhos trazidos pelas novas tecnologias, ele descreve um porto em que decisões deixam de ser tomadas no “olho” e passam a ser sustentadas por registros, rastreabilidade e padronização. “Quando você mede, quando você registra, você consegue melhorar”, diz, defendendo que o ambiente portuário ganha eficiência quando reduz a dependência de improviso e aumenta o grau de informação disponível para todos os atores. Para ele, tecnologia não é “enfeite” — é método, rotina e base para produtividade.
Sanchez também faz questão de mostrar que a adaptação não começa do zero. Ao relembrar experiências no Porto de Santos, ele cita mudanças que, à época, pareciam disruptivas e hoje são parte do cotidiano. O presidente do sindicato menciona a chegada de ferramentas de coleta e registro, o avanço de processos e a evolução do perfil profissional exigido.
Na visão do dirigente sindical, a transformação deve acontecer de forma permanente — e justamente por isso precisa ser organizada. “A gente não pode tratar como se fosse uma ruptura sem caminho”, afirma, defendendo que o trabalhador também precisa enxergar as novas tecnologias como o futuro, e não como uma ameaça.
Eficiência, segurança e qualidade
Na lógica apresentada por Sanchez, a modernização bem-feita se traduz em ganhos concretos para a operação portuária em três frentes. A primeira é eficiência: quando sistemas e equipamentos reduzem etapas manuais, o fluxo fica mais rápido e o porto ganha capacidade de processar mais carga com menos gargalo.
A segunda é segurança, tanto operacional quanto jurídica: processos digitalizados e rastreáveis diminuem disputas, erros e incertezas sobre o que foi feito, por quem e quando. A terceira é qualidade da informação, uma vez que dados confiáveis permitem planejamento melhor — e planejamento, no porto, é tempo e dinheiro.
Ao falar de qualificação, Sanchez reforça que o trabalhador portuário não pode ser visto como peça descartável em um processo de automação. Ele defende que a transição deve respeitar trajetórias e criar oportunidades reais de requalificação.
“Não dá para modernizar empurrando pessoas para fora sem alternativa”, afirma Sanchez, sustentando que é possível incorporar tecnologia sem apagar a experiência de quem construiu o conhecimento prático da operação. Para ele, a indústria portuária ganha mais quando combina o repertório do “chão” com as ferramentas do digital.
Diálogo x confronto
Em outro momento, Sanchez enfatiza que inovação não acontece em ambiente de confronto permanente — e que diálogo é parte da infraestrutura. Ele defende que sindicato e empresa precisam operar com “fair play”, ou seja, com regras claras e compromissos que valham dos dois lados. “Se for para mudar, tem que ser para melhorar para todo mundo”, diz, em um trecho que amarra sua visão de futuro: tecnologia, sim — mas com governança, formação e investimento que não jogue o custo da mudança apenas sobre o trabalhador.
Para o presidente do sindicato o porto do futuro não é apenas ser mais automatizado, mas sim mais profissionalizado, mais orientado por informação e mais exigente em termos de competências.
Sanchez não nega as tensões desse processo, porém insiste que há um caminho possível — desde que se pare de tratar tecnologia como ferramenta de pressão e se passe a tratá-la como projeto setorial. “O trabalhador precisa acompanhar, mas a empresa tem que entregar as condições”, resume, reafirmando que modernizar é uma via de mão dupla — e que o ganho real aparece quando a operação inteira evolui, do cais à cadeia logística.