Marcus Quintella destaca desafios e potencial das ferrovias brasileiras no PodInfra

Diretor da FGV Transportes analisa concessões, investimentos públicos e projetos estratégicos em entrevista ao podcast da Frente Parlamentar Mista de Portos e Aeroportos (FPPA). 

O professor Marcus Quintella, engenheiro com vasta experiência em ferrovias e diretor da FGV Transportes na Fundação Getulio Vargas, participou do PodInfra, podcast promovido pela Frente Parlamentar Mista de Portos e Aeroportos (FPPA). Em uma conversa técnica e aprofundada, abordou o panorama atual das ferrovias no Brasil, enfatizando a necessidade de investimentos públicos para superar entraves históricos e impulsionar a infraestrutura logística. 

Quintella recordou o histórico ferroviário do país, que já chegou a 30 mil quilômetros de malha, mas opera hoje cerca de 10 mil quilômetros, com grande parte subutilizada. “O modelo de concessões iniciado em 1996 priorizou linhas rentáveis, deixando muitas abandonadas”, observou. Explicou que a devolução de concessões abre espaço para novas ofertas ao setor privado, mas alertou para os altos custos de reativação, que demandam planejamento rigoroso. 

Um dos pontos centrais da discussão foi a distinção entre transporte de cargas e passageiros. Segundo o diretor, os trens de passageiros, especialmente em longas distâncias, raramente se sustentam apenas com tarifas e exigem subsídios. “O foco em cargas leva os trens de passageiros a operarem à noite, com horários imprevisíveis”, pontuou Quintella, destacando como isso compromete a viabilidade econômica e a atratividade do modal. 

A interoperabilidade emergiu como desafio regulatório crucial. Quintella defendeu a importância do “direito de passagem” e do “tráfego mútuo”, essenciais para que novas linhas curtas acessem redes existentes e cheguem aos portos. “Sem negociações claras entre concessionárias e novos entrantes, o desenvolvimento fica travado”, afirmou, contextualizando que estudos de demanda, embora vitais, envolvem projeções incertas. 

Sobre investimentos, o professor foi enfático: o Brasil precisa elevar os gastos em infraestrutura de transportes para 4% a 4,5% do PIB, contra menos de 1% atualmente. “Dinheiro público é fundamental para linhas pioneiras, de alto risco e longo prazo; o privado foca no que já tem demanda comprovada”, disse. Mencionou parcerias público-privadas (PPPs) como modelo viável, mas ressaltou que elas frequentemente requerem contrapartida estatal para equilibrar as contas. 

Quintella criticou a dependência rodoviária, responsável por 65% a 70% das cargas, apesar de estradas precárias que elevam custos e acidentes. “Ferrovias e hidrovias são modais mais eficientes, mas faltam investimentos”, argumentou, citando a região de Matopiba, onde a produção agrícola depende precariamente de rodovias. Projetos como Ferrogrão, FICO, FNS e Fiol foram destacados como prioridades para conectar essa área aos portos, a exemplo de Suape, com potencial subaproveitado por falta de acesso ferroviário. 

O Corredor Bioceânico também ganhou atenção. “É um sonho de longo prazo, que exige extensão da malha até a fronteira e soluções em logística internacional, alfândega e regulação”, comentou Quintella, prevendo complexidades, mas benefícios estratégicos. 

A FGV Transportes, sob sua direção, foi apresentada como polo de pesquisa e formação, com jornal científico e cursos especializados. Quintella anunciou o lançamento de seu livro “Mobilidade Urbana e Transporte Público”, reforçando seu compromisso acadêmico. 

A participação de Quintella no PodInfra reforça o debate sobre logística nacional, integrando expertise técnica a pautas parlamentares. Sua visão equilibrada, ancorada em experiência prática em empresas como Sondo, Odebrecht e CBTU, contribui para vislumbrar um futuro mais integrado para portos, aeroportos e ferrovias. 

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