Projeto de R$ 6,8 bilhões, com concessão de 30 anos, promete reduzir o tempo de travessia para dois minutos e inaugurar um marco de engenharia na América Latina
A empresa portuguesa Mota-Engil Latam Portugal venceu o leilão do primeiro túnel submerso do Brasil, que ligará Santos e Guarujá, em cerimônia realizada nesta sexta-feira (4), na sede da B3, em São Paulo.
A disputa, que também teve a participação da espanhola Acciona Concesiones, foi decidida pelo critério de maior deságio sobre a contraprestação pública máxima anual, fixada em R$ 438,3 milhões. O contrato de concessão terá duração de 30 anos e inclui a construção e a operação do equipamento, considerado inédito no país e na América Latina.
A obra atende a uma demanda centenária por uma ligação ágil entre os dois municípios, impulsionada pelo desenvolvimento do Porto de Santos. O primeiro projeto de túnel submerso foi apresentado em 1927. Hoje, a travessia é feita majoritariamente por balsas — com tempo médio de 18 minutos, sujeito a filas e às condições climáticas — ou por rodovias, em percursos que podem levar quase uma hora.
Com o túnel, a estimativa é que o deslocamento caia para cerca de dois minutos, beneficiando o fluxo diário de trabalhadores, estudantes e turistas e desafogando um dos gargalos históricos da Baixada Santista.
Coletividade e equilíbrio
O leilão contou com a participação do presidente da Frente Parlamentar Mista de Portos e Aeroportos (FPPA), deputado federal Paulo Alexandre Barbosa. Em seu discurso, o parlamentar parabenizou a empresa vencedora e fez questão de ressaltar a união entre Estado, Governo Federal e Parlamento na realização do leilão da maior obra de infraestrutura do Novo PAC.
“A mensagem de hoje é que, quando há essa união, esse esforço coletivo, as coisas acontecem. E, muitas vezes, nos campos antagônicos — no mundo em que a gente vive, especialmente o da política, no mundo de extremos, dos radicalismos —, é muito mais fácil atacar do que defender, é muito mais fácil destruir do que construir. Todos nós sabemos das divergências que existem entre polos ideológicos antagônicos, mas nenhum interesse político ou partidário, nenhuma visão ideológica pode se sobrepor ao interesse da população.”
Durante sua fala, Paulo Alexandre Barbosa, que também é presidente da Comissão Externa da Câmara dos Deputados que analisa as obras do túnel, afirmou que continuará acompanhando o empreendimento, garantindo o cronograma de entregas, bem como mantendo os direitos das comunidades da Baixada Santista.
“Que essa posição de serenidade e equilíbrio, adotada até aqui, possa permear as próximas etapas, porque nós temos muitas etapas pela frente. As promessas do contrato e as garantias bancárias serão oferecidas pela empresa vencedora, que tem os meus cumprimentos e as portas da Baixada Santista abertas; o cuidado com a comunidade, no sentido de garantir os direitos. E tudo isso é importante ser feito com muita serenidade, equilíbrio e bom diálogo. É preciso coragem para seguir dialogando e entregando resultados importantes para a população.”
Investimentos
O investimento total previsto é de R$ 6,8 bilhões. Desse montante, R$ 5,1 bilhões virão de recursos públicos, divididos entre a União e o Governo do Estado de São Paulo, enquanto R$ 1,78 bilhão será aportado pela concessionária.
A construção tem prazo estimado de cinco anos e deverá mobilizar a cadeia de engenharia pesada, gerando cerca de 9.000 empregos diretos e indiretos ao longo da obra, segundo projeções oficiais. O empreendimento integra o Novo PAC e é apontado como peça-chave para a competitividade logística do maior porto da América Latina, ao conferir previsibilidade ao tráfego urbano e ao escoamento de cargas.
Do ponto de vista técnico, o túnel terá 1,5 quilômetro de extensão total, sendo 870 metros submersos. O projeto prevê seis faixas de rolamento — três por sentido —, além de ciclovia, passagens para pedestres e espaço dedicado ao Veículo Leve sobre Trilhos (VLT). O desenho multimodal busca integrar diferentes formas de mobilidade, ampliando a segurança e o conforto para quem hoje depende de alternativas mais lentas e vulneráveis ao clima.
A vitória da Mota-Engil — grupo com larga experiência em infraestrutura — sinaliza o apetite privado por projetos complexos de concessão. O modelo do leilão, centrado no maior desconto sobre a contraprestação pública anual, reforça a lógica de eficiência na execução e na operação.
Os próximos passos incluem a assinatura do contrato e o início das frentes de serviço, com etapas de detalhamento executivo, licenciamento e implementação de medidas ambientais e de convivência com a operação portuária.
Além de encurtar distâncias, o túnel Santos–Guarujá simboliza uma mudança de patamar para a engenharia nacional: inaugura uma solução construtiva até então inédita no Brasil, promove integração urbana e fortalece o ecossistema econômico da região.
Se cumprir o cronograma e as metas de desempenho, a travessia submersa tem tudo para se tornar um novo cartão de visitas da Baixada Santista — e uma referência para futuros projetos de mobilidade em áreas costeiras do país.