Durante o bate papo, odiretor-superintendente da Portonave detalha investimento de R$ 2 bilhões para receber navios de 400 metros, cobra concessão do canal de acesso e alerta para riscos da troca na diretoria da ANTAQ
O diretor-superintendente da Portonave, Osmari de Castilho, foi o convidado da edição do PodInfra gravada no dia 15 de abril, durante a Intermodal South America 2026, em São Paulo. Na conversa, Castilho tratou dos gargalos rodoviários e aquaviários do complexo portuário de Itajaí, do investimento de R$ 2 bilhões que a Portonave está concluindo para receber navios de até 400 metros e da relação entre estabilidade regulatória e atração de capital privado.
Castilho está à frente da Portonave há 25 anos — desde a concepção do terminal, o primeiro privado de contêineres do país, instalado em Navegantes (SC). A relação com o IBI, segundo ele, é o caminho que o setor encontrou para levar suas demandas ao Congresso Nacional.
“Nós precisamos trazer os temas para o IBI, suportar e mostrar essa potência que é o setor e o que esse setor ainda pode crescer, de que maneira nós vamos melhorar as condições que hoje restringem esse crescimento. O IBI é um canal importante e a frente parlamentar nos dá a abertura de discussão que precisamos”, disse.
Um dos frutos da parceria foi o Santa Catarina Day, evento promovido pelo IBI com a participação do governador do estado e de secretários estaduais, que conectou a economia catarinense — com foco em exportações e logística — às discussões do Congresso. Castilho indicou que o IBI é o espaço onde o complexo portuário catarinense quer centralizar sua interlocução com o poder público federal.
Dois gargalos rodoviários simultâneos
Segundo o diretor-superintendente da Portonave, a região do complexo portuário de Itajaí e Navegantes concentra dois problemas rodoviários que se sobrepõem: a BR-101, concedida, mas que opera no nível F de congestionamento — o patamar mais crítico da escala —, e a BR-470, que liga os terminais ao Sul do estado e ainda não tem concessão.
“A BR-101 é muito importante, é concedida, porém já atua no nível F, que é um nível de congestionamento constante. Nosso terminal recebe entre 2.300 e 3.300 caminhões por dia nos picos. E chegando ao terminal, temos a BR-470, que ainda não está concedida”, afirmou.
A BR-470 conecta os portos ao interior de Santa Catarina e ao corredor de exportação de proteína animal — o estado é um dos maiores produtores de frango do mundo. A informação disponível, segundo Castilho, é que a rodovia vai a leilão de concessão no próximo ano. Ele defendeu que o processo se cumpra no prazo anunciado e que os trechos ainda inacabados sejam incluídos no contrato.
A BR-101, por sua vez, está próxima do fim da concessão — o que limita novos investimentos no trecho durante essa fase de transição. No longo prazo, Castilho apontou a ferrovia como alternativa para reduzir a dependência rodoviária: Santa Catarina tem hoje uma concentração no modal rodoviário acima da média nacional.
R$ 2 bilhões investidos — e canal de acesso pendente
Durante o bate papo, Castilho informou que a Portonave está concluindo, no segundo semestre de 2026, um investimento de R$ 2 bilhões para adequar sua infraestrutura ao recebimento de navios de até 400 metros — acima do limite atual de 350 metros. O pacote inclui adaptação dos berços de atracação, dois novos guindastes com lança para navios com boca de até 62 metros e 14 guindastes de retroárea.
“Nos antecipamos a essa demanda e precisamos estar preparados para receber esse navio. Porém, poderemos ter restrições se o processo de concessão do canal de acesso não andar na mesma velocidade. Os terminais portuários são dimensionados pelo seu ponto de maior restrição”, falou.
A concessão do canal de acesso ao complexo de Itajaí está em discussão e segue o modelo da concessão do canal de Paranaguá. Sem o aprofundamento do canal — que precisaria passar de 11 para 16 metros de calado —, os navios de nova geração não chegam e o investimento privado perde viabilidade operacional.
Castilho situou o problema dentro de uma perspectiva mais ampla: o Brasil ainda ocupa uma posição pequena no ranking mundial de movimentação de contêineres, incompatível com o tamanho da sua economia.
“Países com economias menores têm movimentação de contêineres maior do que a nossa. Nós competimos com o capital. Esse capital precifica o risco do Brasil, precifica a instabilidade. À medida que diminuímos o nível de incerteza regulatória, vamos conseguir atrair mais capital — e é o capital que vai nos levar a patamares mais elevados”, explicou.
ANTAQ em transição e PL-733
Castilho também avaliou a trajetória da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ) como positiva, destacando o crescimento do número de diretores de três para cinco como um avanço institucional. Mas apontou dois riscos no horizonte: a renovação da diretoria — com até três vagas a serem preenchidas em menos de um ano — e o orçamento abaixo do necessário para a escala do setor.
“A ANTAQ tem ouvido o setor, tem se aproximado do setor. Mas não podemos esperar a Copa do Mundo passar para tomar atitudes. As providências precisam continuar sendo tomadas”, disse.
Ele também citou o Projeto de Lei 733/2025, que trata da estabilidade dos prazos de arrendamento portuário, como pauta central. Projetos Greenfield no setor levam até cinco anos entre o início dos estudos e a tomada de decisão de investimento — e qualquer alteração regulatória no meio do caminho tem impacto direto na taxa de retorno.
Navegantes: desenvolvimento em torno do porto
Em 25 anos de operação, a Portonave transformou Navegantes. A cidade passou de 35 mil para cerca de 100 mil habitantes e subiu do 23º para o 14º PIB do estado de Santa Catarina — com perspectiva de alcançar o top 10 estadual nos próximos anos.
“Trazemos a comunidade para conversar conosco, para entender esses processos e de que maneira nós podemos crescer juntos. Quando implantamos o terminal, construímos uma via portuária com pista dupla em ambos os sentidos e doamos para a cidade”, comentou.
Atualmente o terminal emprega 1.400 trabalhadores diretos e cerca de 2.000 prestadores de serviço especializados. Entre os programas sociais, Castilho destacou o Embarca Aí, que recruta jovens de Navegantes e os prepara para o mercado de logística; um projeto de surf adaptado para pessoas com deficiência; e um curso de português para migrantes, que enfrentam barreiras de idioma para entrar no mercado de trabalho local.
Além disso, em maio de 2026, a Portonave concluiu um centro de treinamento com capacidade para formar 300 trabalhadores por ano, com laboratório de simulação de operações reais. Castilho o descreveu como um dos mais avançados da América do Sul.
“Os portos tiveram um estigma do passado. Hoje temos terminais seguros, com trabalhadores qualificados. Em alguns casos, estamos recebendo representantes de outros países para olhar o que estamos fazendo. Evoluímos muito”, disse.
O episódio do PodInfra com Osmari de Castilho vai ao ar na próxima terça-feira.