Porto de Santos recebe primeiro abastecimento de navio porta-contêineres com etanol no Brasil

CMA CGM Iron recebe 500 toneladas de etanol da Copersucar no terminal da Santos Brasil; operação envolve quatro associados do IBI e projeta o Porto de Santos como hub de combustíveis marítimos de baixo carbono 

O navio porta-contêineres CMA CGM Iron, da armadora CMA CGM, recebeu nesta segunda-feira (13), no terminal da Santos Brasil, no Porto de Santos, 500 toneladas de etanol — equivalentes a 635 mil litros do biocombustível —, em operação inédita no Brasil para embarcações transoceânicas. O combustível foi fornecido pela Copersucar, transportado por barcaça adaptada pela Bunker One e armazenado pela AGEO Terminais. Uma cerimônia de apresentação da operação foi realizada na segunda-feira (13) no Tecon Santos, em Guarujá. 

A iniciativa foi promovida por quatro associados do Instituto Brasileiro de Infraestrutura (IBI): a CMA CGM, proprietária da embarcação; a Copersucar, responsável pelo fornecimento do etanol; a Santos Brasil, operadora do terminal onde o abastecimento foi concluído; e a AGEO Terminais, responsável pela armazenagem do biocombustível no porto.  

Mário Povia, diretor-presidente do IBI, acompanhou o evento e falou sobre o protagonismo da iniciativa e a possibilidade do Brasil ser um gigante na produção de combustíveis verdes no mundo.  

“O Brasil tem condições únicas para liderar a descarbonização do transporte marítimo mundial. Somos o segundo maior produtor de etanol do planeta, com cadeia produtiva consolidada, certificada e sustentável. O que aconteceu no Porto de Santos não é apenas um marco operacional — é a demonstração de que o nosso país tem o insumo, a logística e a capacidade de transformar uma tendência global em realidade. Para o IBI, este abastecimento é a comprovação de que o compromisso ESG dos nossos associados vai além da declaração de intenções: ele se materializa em operações concretas, com impacto real na redução de emissões”, disse. 

O evento também contou com a participação do presidente do Conselho de Administração do IBI, Mauro Sammarco e a presidente do IBI Social, Eliane Sammarco.  

“Vemos nesta operação a materialização de uma agenda que o IBI defende há tempo: a integração entre os diferentes elos da cadeia de infraestrutura. Ver quatro associados em torno de um objetivo comum mostra que o setor privado brasileiro está preparado para liderar a transição energética do transporte marítimo. Nosso papel é garantir que iniciativas como esta encontrem previsibilidade regulatória e ambiente favorável a investimentos, para que deixem de ser exceção e se tornem rotina nos portos brasileiros”, afirmou Mauro Sammarco,  

O navio e o motor tricombustível 

Entregue em 2025, o CMA CGM Iron tem capacidade para transportar 13 mil TEU — unidade equivalente a um contêiner de 20 pés. A embarcação é a primeira de uma série de 12 porta-contêineres equipados com o motor Everllence-B&W G95ME-C10.5-LGIM, o primeiro do mundo certificado para operar com etanol. O equipamento foi desenvolvido originalmente para metanol; testes posteriores demonstraram eficiência equivalente com etanol anidro. 

“Juntamente com nossos parceiros, demonstramos que a inovação pode sair do laboratório e chegar às operações marítimas reais. A certificação do nosso primeiro navio com motor tricombustível abre caminho para o uso mais amplo de combustíveis de menor intensidade de carbono e nos oferece novas alternativas para acelerar a descarbonização de nossas operações”, afirmou Christine Cabau Woehrel, vice-presidente executiva de Ativos e Operações da CMA CGM. 

Após o abastecimento no Porto de Santos, o CMA CGM Iron seguiu para Paranaguá (PR) e, de lá, rumou ao Sri Lanka. A CEO da CMA CGM Brasil, Neusa Marcelino, afirmou que a avaliação da eficiência energética do etanol dependerá dos resultados dessa primeira viagem — e que ainda é cedo para definir quantos navios da armadora passarão a utilizar o biocombustível. 

O combustível e a cadeia produtiva 

O etanol utilizado tem a mesma especificação do etanol anidro empregado na mistura com gasolina no mercado automotivo brasileiro — produto com cadeia de produção consolidada e certificada pelo programa RenovaBio, que estabelece critérios de sustentabilidade e desmatamento zero. A expansão da cana-de-açúcar no Brasil ocorre predominantemente sobre áreas de pastagens degradadas. 

Segundo Tomás Manzano, presidente da Copersucar, o uso do etanol em substituição ao combustível fóssil de navegação reduz em cerca de 70% as emissões de gases de efeito estufa.  

“Esta operação demonstra a capacidade da Copersucar de conectar produção, logística e mercado para viabilizar soluções bioenergéticas em escala. Mais do que um abastecimento pioneiro, estamos construindo as condições para que o etanol passe a integrar, de forma competitiva, a matriz energética da navegação, ampliando o protagonismo do Brasil na transição para uma economia de baixo carbono”, falou. 

Logística e segurança da operação 

As 500 toneladas abastecidas foram suficientes para encher apenas um dos tanques da embarcação. O volume saiu da AGEO Terminais — o maior armazenador de granéis líquidos do Porto de Santos — e chegou ao navio por uma barcaça originalmente utilizada para diesel marítimo, adaptada pela Bunker One para o transporte de etanol. 

Daniel Caldas, diretor de Operações da Bunker One no Brasil, descreveu os ajustes necessários. “Foram instalados equipamentos seguros, mangotes específicos, realizado um treinamento intensivo da tripulação e elaborado um plano de emergência voltado ao risco de incêndio. O etanol tem um ponto de fulgor mais baixo — ou seja, entra em ignição mais facilmente que o diesel marítimo. Por isso, nosso foco foi a segurança operacional”, disse Caldas. O abastecimento durou entre cinco e seis horas. 

Caldas apontou também uma vantagem ambiental em caso de acidente. “Se houver um vazamento, o etanol evapora rapidamente e não causa impacto no corpo hídrico como um combustível derivado do petróleo. Isso muda o foco do combate à emergência”, disse. 

Porto na rota dos combustíveis verdes 

Antônio Carlos Sepúlveda, diretor-presidente da Santos Brasil, afirmou que sediar a operação consolida o papel do Tecon Santos na transição energética da navegação.  

“A Santos Brasil nasceu para transformar a operação portuária e continua fazendo parte dessa história. Agora, também estamos participando da transformação da matriz energética do transporte marítimo”, argumentou. 

A secretária-executiva adjunta do Ministério de Portos e Aeroportos, Luíza Amorim Motta, presente à cerimônia, classificou a operação como um marco para a logística brasileira e afirmou que ela posiciona o país na vanguarda da transição energética do transporte marítimo. 

Mercado potencial e metas internacionais 

O transporte marítimo responde por cerca de 3% das emissões mundiais de CO₂. A Organização Marítima Internacional (IMO) estabeleceu meta de emissões líquidas zero para o setor até 2050, com medidas que incluem precificação de carbono sobre combustíveis marítimos e mobilização de recursos globais para inovação em tecnologias limpas. 

Manzano dimensionou o mercado em aberto. “O consumo global de combustível de navegação é bastante representativo. Se 10% desse combustível for substituído por etanol, estamos falando de um volume em torno de 50 bilhões de litros de etanol. Hoje, o Brasil produz 37 bilhões de litros — então é uma oportunidade muito grande”, disse.  

O próximo desafio, segundo ele, é desenvolver corredores verdes de abastecimento para que navios possam utilizar etanol a partir do Brasil e de outras localizações estratégicas. 

A perspectiva de expansão da frota compatível tem números concretos. Flavio Ribeiro, CEO da Bunker One, estima que os navios aptos a operar com combustíveis não fósseis crescerão dos atuais 70 para mais de 400 nos próximos anos. “Essa operação pode ser considerada um marco na transição energética na indústria marítima em escala mundial, que começa a se adaptar para este modelo”, disse Ribeiro. 

Localização:

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