Durante a mesa-redonda “Conexões que Transformam: Porto, Educação e Sustentabilidade”, promovida pelo IBI Social, especialistas debateram soluções para reaproveitar resíduos de dragagem.
A Frente Parlamentar Mista de Portos e Aeroportos (FPPA) e o Instituto Brasileiro de Infraestrutura (IBI) realizaram, na última sexta-feira (27), a mesa-redonda “Conexões que Transformam: Porto, Educação e Sustentabilidade”. O evento celebrou a inauguração oficial da nova sede das duas entidades em Santos.
Promovida pelo IBI Social, a mesa-redonda reuniu autoridades, empresários, acadêmicos e operadores portuários para debater infraestrutura sustentável, com ênfase no setor portuário e hidroviário.
O Painel 1, intitulado “Sustentabilidade: O que fazer com os resíduos da dragagem?”, teve como objetivo discutir soluções sustentáveis para gestão e reaproveitamento de resíduos oriundos da dragagem, com foco em inovação, regulação e boas práticas internacionais.
O debate mostrou que os portos brasileiros enfrentam um dilema crítico: a dragagem é essencial para manter a navegabilidade, mas gera milhões de metros cúbicos de sedimentos anualmente, cuja destinação ambiental e econômica desafia operadores, reguladores e inovadores.
Nesse sentido, os debatedores propuseram uma virada de paradigma: tratar esses materiais não como resíduos, mas como recursos para construção civil, restauração costeira e economia circular.
Os trabalhos foram moderados por Mauro Sammarco, presidente do Conselho de Administração do IBI (CONSAD), que, em sua fala, provocou reflexões sobre regulação e inovação.
“Precisamos de economia circular: sedimentos como matéria-prima para diques, praias e barreiras acústicas. Programas como o PRIDE da APS otimizam dinâmica sedimentar, mas concessões longas e incentivos fiscais são cruciais para viabilizar técnicas como injeção de água, que minimizam distúrbios ecológicos e custos logísticos.”
Marcelo Sammarco, vice-presidente do Conselho do IBI, contextualizou o debate enfatizando a integração técnica e social. “A dragagem no Porto de Santos exige manutenção constante para calados profundos, mas os sedimentos podem ser co-produtos valiosos. Adotando a filosofia ‘Trabalhar com a Natureza’ da PIANC, promovemos eficiência operacional, viabilidade financeira e concessões inovadoras. O IBI Social une porto e cidade, fomentando diálogos que desbloqueiam potencial hidroviário sustentável.”
Nicola Margiotta Jr., diretor administrativo e financeiro do IBI, destacou a escala do problema e a necessidade de parcerias. “Santos movimenta volumes imensos de dragagem, com desafios em licenças e áreas de descarte. Soluções integradas, como reúso em obras costeiras, demandam colaboração academia-indústria-governo. A nova sede do IBI em Santos será hub para superar barreiras regulatórias, alinhando regulação a tecnologias que geram valor econômico e reduzem impactos ambientais.”
Mateus Novaes, gerente de Dragagem da Autoridade Portuária de Santos (APS), delineou o panorama operacional nacional. “No Brasil, a dragagem em Santos requer estudos detalhados de caracterização para reúso benéfico, como replenishment de praias ou proteção costeira. Barreiras incluem escassez de áreas de descarte e licenças rigorosas. Investimentos em P&D pela APS visam processos otimizados, evitando deterioração de infraestruturas e promovendo sustentabilidade a longo prazo.”
Experiência Internacional e Reúso
Os debates contaram com a participação de Ricardo Delfim, diretor comercial da Jan De Nul. Em sua fala, o executivo trouxe exemplos práticos de projetos de dragagem, destacando o reúso sustentável de sedimentos e mostrando como transformar “lixo” ambiental em soluções úteis, econômicas e ecológicas.
“Em projetos como a recuperação de 9 km de costa em Santa Catarina e Itapoá, dragamos 11,9 milhões de m³, reutilizando 5,7 milhões em praias e dunas, com recomposição vegetal de 800 mil m². No Equador, o contrato de 25 anos na Hidrovia do Rio Guayas mantém 95 km marítimos e 90 km fluviais, com 7 a 10 milhões de m³ anuais, garantindo profundidades 24/7 via aporte privado. Iniciativas como Aqua Forest restauram manguezais com sedimentos dragados, sequestrando carbono 4 vezes mais que florestas tropicais e gerando empregos locais, provando viabilidade econômica com redução de frete e atratividade regional”, explicou.
Rafael Pileggi, professor da Escola Politécnica da USP, apresentou avanços acadêmicos em reúso de resíduos marinhos.
“Sedimentos dragados podem virar barreiras acústicas como o GEOWALL®, blocos de recife no Ems-Dollard ou terra compactada estabilizada para construção. Na economia circular, combinamos com rejeitos minerais – como bauxita para pavimentos de alta resistência ou coprodutos de cobre e níquel para materiais cimentícios. Soluções como ‘living seawalls’ e corais artificiais fixam CO₂ extra, promovem biodiversidade e integram ‘infra azulverde’, acelerando inovações para construção descarbonizada em megacidades.”
Soluções Verdes
Érick Aeck, diretor da Van Oord no Brasil, defendeu estratégias híbridas. Defendeu a proposta da Green Gray Infrastructure, que combina engenharia convencional com soluções naturais. Isso é feito por meio de dragagem seletiva (remover só o necessário, evitando excessos) e monitoramento em tempo real, usando sensores e dados ao vivo para precisão.
“Adotamos Green Gray Infrastructure, mesclando engenharia tradicional com elementos naturais via dragagem seletiva e monitoramento em tempo real. Cases europeus mostram reúso em nourricement de praias viável economicamente, mas no Brasil, regulação fragmentada trava avanços. Políticas para P&D e concessões flexíveis impulsionam inovações que minimizam erosão e elevam resiliência climática.”